O meu primeiro contato com a escola não foi dos mais agradáveis, pois eu era uma criança que amava brincar com animais, tinha minha própria ovelhinha de estimação, cães, um casal de bugios e dois gatinhos.
No primeiro dia de aula, vi meu irmão me deixar na escola e afastar-se de bicicleta, foi só o tempo de respirar e começar a chorar, imaginando o que eu teria feito para a minha família me abandonar naquele lugar.
Mesmo tendo duas amigas junto comigo, precisei voltar para casa cedo todos os dias da primeira semana da aula. Aos poucos fui me acostumando com os novos amigos, a professora Dona Carmen; e a maravilhosa “Cartilha da Mônica”.
Não lembro quanto tempo levei para concatenar as letras e os desenhos, fato é que um belo dia chamei uma colega de “burra” porque ela não sabia algumas letrinhas e a minha professora disse: “Adriana, ninguém nasce sabendo!” e eu muito senhora de mim respondi: “só ela então, porque eu nasci sabendo sim senhora”.
Sempre fui uma pessoa curiosa, desde a infância, então penso que o maior milagre que pode acontecer é aprender novidades. Então, as letras, os desenhos, os livros de páginas cada vez mais densas começaram a ser o meu maior pacote de aprendizado.
Compreendo que uma pessoa pode fazer qualquer coisa que deseje fazer, desde que ela se proponha a cruzar o caminho entre o ponto do desejo de saber e o de saber. O caminho é longo, árduo, mas o ponto final é de plena satisfação.
Estudei em escola pública durante o pré e a primeira série e tenho felizes lembranças de aprendizado. A partir da 2ª série fui para uma escola particular, a Escola Sagrado Coração de Jesus, onde comecei a sentir uma diferença no ensino, mesmo não compreendendo exatamente qual era essa diferença.
O estímulo dado aos alunos na escola particular é bastante efusivo em torno de formar pessoas de ação, de pensamento crítico desde o início do seu estudo. Aprendemos que, para melhor assimilação, devemos compreender para o quê servirá tal aprendizado em nossa vida.
Então, percebi que a concepção que alguns professores tinham a respeito de aprendizado, é a de que aprende melhor quem sabe o quê e porquê está aprendendo, isto é, o código alfabético e a compreensão do que se lê tinha uma grande importância.
No entanto, hoje reflito, se a dificuldade que diferencia a escola pública da privada poderia ser o método ou o “material” a ser lapidado. Em escolas particulares trabalha-se com crianças preparadas pelos pais a “não demonstrar” claramente seus defeitos, a terem o professor e a porta da sala como limite.
Na escola pública, os alunos não tiveram convivencia suficiente com os pais ou não tiveram alguem que lhes ensinasse que não se deve expor seus defeitos, vicios de comportamento na hora do aprendizado.
O objetivo deve ser alcançado, mas atualmente, qual é o nosso objetivo? Se nos desviarmos totalmente do objetivo aprendizado de disciplinas para um novo objetivo de “boa convivência” e aprendizado de comportamentos, teremos criado uma falha de aprendizado, que ninguem conseguirá sanar, pelo menos não em uma única geração.
Atualmente, não vejo, pelo menos na escola pública, as crianças gostarem de livros, talvez porque atualmente temos cinema em casa a hora em que desejarmos. Porém, entristeço-me ao verificar que esses jovens são privados da maravilha que é ler um livro e sonhar seus próprios personagens.
Na minha infância, tive acesso a diferentes tipos de leituras. A maior alegria era o dia do meu aniversário, pois minha madrinha tinha uma livraria em Santa Rosa/RS, junto à livraria uma loja de bonecas, então, quando chegava próximo ao dia 13 de março, eu telefonava para a mesma e dizia: “Oi madrinha, semana que vem estou de aniversário, me manda uns livros de presente? Ah, e uma bonequinha também”.
Não lembro se liam histórias para mim, mas lembro que meus pais e irmãos contavam muitas histórias, algo como tradição de família, tudo o que ocorria com os amigos no trabalho, em festas, ou lembranças do passado se transformavam em deliciosas histórias que sempre tinham um fim engraçado ou feliz.
Na minha infância houve nomes de autores de livros que jamais esquecerei: “Hans Cristian Andersen” e “Irmãos Grimm”. Histórinhas como “A Rainha de Gelo” e “O soldadinho de Chumbo” de Andersen; e “Branca de Neve e os Sete Anões” e “Chapeuzinho Vermelho” dos Grimm, permanecem no meu coração.
Minha tristeza é não encontrar atualmente, o mesmo destaque para essas histórias que considero importantes para aguçar a crítica e os sentimentos das crianças.
Atualmente se lê livros de autores nacionais, com grande mérito porque há histórias excelentes, no entanto, algumas histórias são realistas demais, tirando o direito de sonhar que toda criança e todo adulto têm. Todos temos direito a sonhar com finais felizes.
Os autores, no fundo, sempre escrevem para si próprios e se basearmo-nos nessa idéia, diremos que os autores de 100 anos atrás escreviam para pessoas romanticas e sonhadoras, e os autores de atualmente escrevem para pessoas que precisam ter medo da realidade, ao invés de sonhar com caminhos floridos.
Escrevem, os autores atuais, de uma forma muito mais clara e explicativa, para sanar seus medos e avisar o mundo de que o caminho adiante deve ter o devido cuidado. E não podemos nem condenar os autores por isso, pois na verdade, precisamos cuidar das futuras gerações, muito mais do que nossos avós precisaram cuidar de nossos pais.
Nós, que não somos grandes autores, chamamo-nos de pessoas normais, escrevemos quando impelidos a isso. Não somos mais como três gerações anteriores, em que cartas de várias páginas iam de um ponto a outro deliciando a mente dos historiadores atuais.
Fala-se até que a história vá chegar ao fim algum dia por falta de fontes, porém, nossos tataravós escreviam cartas, enviavam-nas via pombo correio, via correio de carroça, via menino de rua, as cartas demoravam meses para chegar de um ponto a outro, mas eram preciosidades, tesouros que não se rasgava por motivo algum.
Não eram tratadas as cartas antigas, como os e-mails atuais, cartas eletrônicas que, após lidas são apagadas, pois há tantas outras na fila para serem lidas.
Na escola, então, lê-se e escreve-se muito a contragosto; é quase um sentimento de obrigatoriedade e desprazer para os alunos o ato de escrever. A dificuldade do professor em concorrer, entre o ato da escrita e os pensamentos no mundo que gira lá fora da sala de aula, transforma a aula em uma luta entre quem ensina e quem deve aprender.
Onde estará a raiz do problema? Na escola? Nos professores? Na aula não-atrativa? Seremos nós professores ou apresentadores de circo?
Ou será que a vida do aluno não está sendo propícia a iluminar o desejo do aprendizado? Bem, se for esse o problema, caímos em um poço bem maior, que é a família, a sociedade, a economia e a governabilidade.
E enquanto não conseguimos sanar o problema descobrindo “quem” é o problema, para resolvê-lo, vamos tentando ensinar os sentimentos que temos pela leitura, que é o que nos leva adiante no gosto do aprendizado.
Aprender talvez seja um vício como qualquer outro, no qual somente alguns fracos propícios caem e morrem se não tiverem a maravilhosa droga do eterno aprendizado. Felizes os fracos que se tornam fortes pelo seu próprio sonho!
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